Fica a dica: vá ao Teatro


Foto: Robson Araújo

Meus textos por aqui tem sempre focado nas questões das políticas públicas para as Artes e a Cultura. Mas hoje resolvi escrever sobre outro olhar diante do cenário de falência de tais políticas para o referido setor. Existem inúmeras pesquisas que atestam a média da quantidade de livros que uma pessoa que vive no Brasil lê por ano. E assim seguem pesquisas sobre a frequência das pessoas nos cinemas, salas de espetáculo, shows musicais, exposições, museus, entre outros. Essas pesquisas geralmente nos trazem dados muito assustadores. Não só no seu caráter quantitativo, mas também de seu caráter qualitativo.

Não posso transformar esse escrito num puxão de orelha, não se trata de uma cobrança, mas sim de um chamado para a reflexão. Natal e o Rio Grande do Norte ainda ostentam ares provincianos. Nos tempos de província, os Coronéis financiavam as artes e o consumo artístico dos mais pobres. A arte servia como uma maneira de acalmar os ânimos dos mais revoltados, servia como a velha política do “Pão e Circo” (nada contra o Circo), alimentava-se com um pouco de pão e um pouco de festa a vida das pessoas. Esse sentimento se espalhou e até hoje está presente nas entranhas dos nossos gestores culturais e de boa parte de nossa população, que acostumou-se com eventos culturais gratuitos servidos ao bel prazer do gestor que tenta amansar seu povo com alguns shows “de graça”. Eu mesmo sou testemunha e conheço pessoas que preferem não pagar a entrada de um evento artístico para poder consumir duas cervejas a mais na sua noite de bebedeira. Às vezes dá para ouvir de alguns a seguinte frase: “para quê pagar a entrada se dá para a gente ouvir a música daqui de fora?!”. Ainda tem aquela turma que prefere pagar um ingresso caríssimo no Teatro do Shopping, na maioria de shows de artistas de outros estados, do que frequentar casas de espetáculo com menor pompa do que o referido Teatro e de espetáculos produzidos em nosso Estado.


São comportamentos como esse citado acima que nos transforma numa cidade provinciana que pouco investe em arte e nos seus artistas. Muito dificilmente um artista consegue viver de bilheteria no Rio Grande do Norte. A bilheteria tem servido para os artistas manterem acesa a chama de sua produção artística, os ingressos servem para custear os gastos mínimos de uma produção artística, faz com que o grupo tente se manter na visibilidade e que seja contratado para outras ações ou que consiga circular com seu trabalho em Festivais ou circulações ligadas ao SESC. Uma cidade onde o público consumidor de arte valoriza seus artistas faz com que o poder público sinta-se na obrigação de investir em sua produção artística. É uma via de mão dupla.


Tenho quase certeza que essa minha reflexão será lida por pessoas da classe média, brancas em sua maioria, e provavelmente de orientação política à esquerda. Geralmente esse é o perfil dos leitores e leitoras de um portal com o perfil do Saiba Mais. E do mesmo jeito que existe essa dificuldade de fazer com que pessoas negras e de origem periférica acessem esse texto, existe a dificuldade primeira de fazer com que essa grande parcela da população que não acessa as leituras desse portal também não consigam acessar a divulgação de determinadas apresentações artísticas de nossos artistas; a dificuldade segunda e mais latente é a financeira, aquela que impede que você gaste o dinheiro do feijão da semana em detrimento de uma apresentação artística em teatros localizados a quilômetros de distância de seu lugar de morada. E a questão da mobilidade urbana e do direito à cidade é um terceiro problema que podemos listar. Algumas questões citadas acima são de responsabilidade direta ou indireta do poder pública. Por mais que eu tenha iniciado esse texto tentando fugir dessa temática das políticas públicas, é inevitável não responsabilizar os governos municipais, estaduais e federal de suas verdadeiras responsabilidades. Mas vou tentar voltar para o que eu estava falando. Vamos falar da responsabilidade, que nós leitores e escritores desse portal temos com a produção artística do nosso povo. Quantas vezes você foi ao teatro em 2018? Quantas vezes você foi a um cinema ou a um festival de cinema em 2018? E quantas vezes você assistiu um filme, peça, balé ou show musical de um artista potiguar? Quantas vezes você foi a um salão de exposição em 2018? Quantas dessas exposições eram de artistas potiguares e com uma curadoria de qualidade? Quantos lançamentos de livros de autores potiguares você foi em 2018 e quantos desses livros você de fato leu por inteiro?


São muitas perguntas e boa parte delas não me interessa que a resposta chegue até mim. O meu desejo mesmo é de fazer com que as pessoas reflitam mais sobre a importância de cuidar da arte produzida em nosso Estado, valorizá-la economica e simbolicamente. A arte será lugar de resistência frente à onda conservadora e censuradora que estamos a conviver em pouco mais de 10 dias de um novo governo em nosso país. Até que ponto vamos olhar para nossos artistas como cereja de um bolo? A história nos ensinou que arte é o motor primeiro das revoluções, ela sempre esteve no fronte das batalhas, ajudou a fazer com que as pessoas refletissem diante de seus problemas, fez com que a gente pudesse olhar o mundo com olhos estranhados, e foram os artistas que também deram a cara e disponibilizaram sua arte como ferramenta de luta. Por isso, nós, militantes de esquerda e do campo progressista, precisamos entender bem a importância da arte e de que a revolução deve ser cultural e não podemos nos render ao capricho da indústria cultural e ficar reproduzindo e nos rendendo à paupérrima produção cultural enlatada com o simples discurso de que essa é a maneira de se aproximar das massas. O povo não é burro, não é estúpido e não tem mau gosto, ele só não tem acesso a um produção artística de qualidade, e espero que os quadros da esquerda entendam bem seu lugar de fala e da referência que eles são para boa parte de seu povo.


Aproveitando a temática deste artigo, lhe convido para ir ao teatro nesse fim de semana. Fiquei sabendo que tem bons espetáculos em cartaz por lá e coincidentemente eu estou em cena em um deles. Fica a dica.

Publicação feita no Saiba Mais: https://www.saibamais.jor.br/fica-a-dica-va-ao-teatro/


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