Onde tem arte não tem violência

Ainda sonho com uma sociedade em que não se precise mais de agentes de segurança, como guardas, vigilantes e policiais, e quando falo isso não é porque faço um discurso contra a categoria, mas o debate aqui não se trata de questões trabalhistas, e sim de questões humanitárias, culturais e comportamentais. Mais da metade da minha vida foi construída dentro de um grupo de teatro e nessa microestrutura eu aprendi a olhar nos olhos das pessoas, a pegar nas mãos uns dos outros, a abraçar e beijar meus colegas de trabalho sem nenhum pensamento preconceituoso. O teatro para mim sempre foi o lugar da tolerância, da convivência e do respeito. Valores que foram incorporados a minha prática cotidiana a partir das minhas vivências artísticas. Enquanto minha personalidade era forjada nesse ambiente de Arte, eu pude acompanhar minha cidade sair do patamar de uma das mais tranquilas do país e se tornar uma das cidades mais violentas do mundo.


Coincidentemente ou não, Natal e o Rio Grande do Norte têm um dos piores investimentos em políticas públicas para as artes e para a Cultura no Brasil. Por aqui se adota o velho modelo da política de eventos e sem nenhuma política pública para a Cultura de base comunitária e nem de auxílio e fortalecimento das produções de artistas potiguares e natalenses. Numa sociedade onde as políticas sociais não são apresentadas como opção para a população, o consumo e o tráfico de drogas e a exploração sexual infanto-juvenil acabam se apresentando como únicas opções de sustento e de lazer para as juventudes periféricas. As classes mais abastadas conseguem suprir suas necessidades culturais a partir de seu poderio de compra, mas as populações mais pobres são obrigadas a consumir o lixo do mercado cultural que na maioria das vezes cultua um imaginário de violência, de sexualização exacerbada e de ostentação financeira a partir de uma conquista fácil de seu capital financeiro. Esses elementos acabam por permear o imaginário coletivo de uma sociedade sem opções de lazer, uma sociedade que se afastou de valores populares e comunitários e que tem se agarrado a valores de mercado, globalitários, de disputa desenfreada e de violência. O debate em torno de Segurança Pública só existe porque está instalada na sociedade uma cultura do medo e da violência, em lugares onde os índices de violência são baixos ou inexistentes ninguém fala em verba pra segurança, as verbas são voltadas diretamente para a educação, arte, cultura, saúde e assistência social. Só que a lógica capitalista traz pra sociedade uma disputa no campo do mercado da violência e do medo. Ninguém quer debater a descriminalização das drogas como medida pra diminuir o tráfico, regulamentar e taxar o consumo de entorpecentes. Existe um interesse cada vez maior de ver as cadeias públicas abarrotadas de homens negros, pois há um debate e um lobby muito forte para que se privatizem presídios. Nunca se vendeu tantas cercas elétricas, vidros de carros arrombados, celulares, equipamentos de som automotivo, contratação de vigilantes e câmeras de segurança. É óbvio que no estado em que encontramos as coisas, tenha-se que aumentar o efetivo de policiais nas ruas, é uma medida fundamental a ser tomada em curto e médio prazo, mas é muito triste pra uma sociedade que tem gestor que quer ser o “Gestor da Segurança” ou outro que nega que a violência seja um problema seu porque ele cuidava da Prefeitura e não do Governo.


Ainda sonho com uma sociedade onde o policial possa ocupar as comunidades numa outra perspectiva, num olhar totalmente diferente do que encontramos hoje, um policial que deixe de lado sua energia cerceadora e vigilante, mas que seja um profissional que domina ofícios artísticos, que o tempo que ele passe nos bairros não seja dentro de um carro procurando saber se as pessoas estão infringindo a lei, mas que ele possa ocupar a praça dando aula de teatro, dança, artes visuais e música, e que forme grupos artísticos e esportivos.


Mas numa sociedade onde o ódio tem tomado o coração das pessoas, onde a premissa de “bandido bom é bandido morto” e onde a justiça do “olho por olho e dente por dente” e feita com as próprias mãos tem ganhado muitos adeptos, fica até difícil tentar trazer algum tipo de lucidez para a vida das pessoas. Enquanto isso as pessoas estão morrendo simplesmente por serem homossexuais, mulheres, negros e negras. Aqueles que atentam contra a vida de um próximo são os mesmo que pregam “valores da família” e das pessoas de “bem”.


Não é somente com mais policiais na rua e com política de grandes eventos que vamos resolver a questão da insegurança em nosso estado. Ou começamos a fazer uma grande força tarefa para que os investimentos em Arte, Cultura e Educação cheguem até as pessoas, ou continuaremos fazendo gestão para os ricos, para as elites, para os bairro e cidades onde moram os ricos, e enquanto isso as opções para a Juventude são o tráfico e o consumo de drogas ilícitas, a prostituição, exploração e o abuso sexual infantil, e por fim, a produção cultural de baixa qualidade que é reproduzida a partir do jabá das rádios e dos programas de auditório da TV brasileira.


Ou mudamos o nosso pensamento no tocante aos investimentos em arte e cultura, ou não haverá horizonte sem violência no futuro das nossas cidades e federações.


Publicação feita no Saiba Mais: https://www.saibamais.jor.br/onde-tem-arte-nao-tem-violencia/

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